7 membro, 1 associação - AECFUL

1.png

 

A REFlexus falou com a Presidente da Associação de Estudantes de Ciências Farmacêuticas da Universidade Lusófona (AECFUL), Joana Moreira Pereira, sobre a associação que representa.

sair da nossa zona de conforto e arriscar
— Conselho de Joana Pereira, Presidente Cessante da AECFUL

Contando com 17 anos de existência, a AECFUL é uma Associação de Estudantes bastante recente. Ainda assim, Joana considera que “ao longo da sua existência, todas as Direções que por ela passaram têm primado pela inovação e pela evolução, tentando diferenciar-se pelas atividades que realiza e pela sua forma de pensar”. Além disso, a AECFUL é uma associação independente da associação da sua Universidade, faz parte da APEF e “tem conseguido manter-se ao mesmo nível das associações maiores e mais antigas”, argumenta de forma convicta.

A Presidente da AECFUL conta que, desde a sua criação, a associação tem como principal objetivo “representar todos os estudantes que frequentam o Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas (MICF) na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia (ULHT), trabalhando sempre em prol da defesa dos seus direitos, interesses e ambições”. Mantendo o elo de ligação entre os estudantes do MICF da ULTH e das várias entidades externas do setor farmacêutico e do Ensino Superior, a Direção da AECFUL trabalha no sentido de colmatar as falhas que o curso ainda possui.

Apesar de ser uma associação pequena, representando apenas 142 estudantes, Joana defende que esta característica “permite uma relação mais próxima com os colegas, docentes e todas as entidades dentro da Universidade”, sendo este um dos seus pontos fortes. A AECFUL distingue-se ainda das restantes associações pela sua maior atividade - e pela qual é reconhecida - a Semana das Ciências Farmacêuticas, descrita como “uma semana de rastreios e consultas gratuitas para toda a comunidade do Campo Grande”.

Quanto aos motivos que a levaram a concorrer a este cargo tão desafiante, Joana confessa que ser Presidente da AECFUL era um objetivo que tinha desde o primeiro ano em que foi convidada a fazer parte da mesma, afirmando que nunca teve ninguém a “abrir-lhe caminho” para ali chegar. Por último, a Presidente defende que é importante “sair da nossa zona de conforto e arriscar”, possibilidade que surgiu na AECFUL, admitindo que a oportunidade de crescimento pessoal e profissional foi também uma das grandes motivações para dar esse passo.

Entrevista a Joana Pereira, Presidente Cessante da AECFUL

Texto elaborado por: Sara Alcarpe, FFULisboa

7 membros, 1 associação - AEFFUL

2.png
O associativismo surgiu na minha vida por mero acaso. Nunca tinha demonstrado um especial interesse nas atividades da associação, portanto não tinha “ganho nome” para referência futura
— Miguel Santos, Presidente Cessante AEFFUL

O  presidente da Associação dos Estudantes da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa (AEFFUL), Miguel Santos, começa por contar: “O associativismo surgiu na minha vida por mero acaso. Nunca tinha demonstrado um especial interesse nas atividades da associação, portanto não tinha "ganho nome" para referência futura”. Tendo integrado a Comissão de Finalistas do seu ano, porque gostava de se envolver na vida estudantil, sente que terá demonstrado algo que cativou a atenção da AEFFUL’14, ao ponto de o convidarem a integrar a Direção da AEFFUL, no ano de 2015. Desde então, nunca mais saiu. Acima de tudo, acredita que “as mais valias de viver o associativismo são o enorme desenvolvimento de capacidade de trabalho e também a nível pessoal, porque lidar diariamente com pessoas é capaz de ser a tarefa mais complicada do dia a dia”.

Quanto à influência positiva do exercício deste cargo a nível profissional, acredita que passará muito por competências como a gestão de tempo, liderança e pensamento crítico, desenvolvidas enquanto dirigente associativo. Ainda assim, não se sente privilegiado em relação aos seus colegas por ser presidente, considerando que “o que eles adquirem em conhecimento científico, posso, talvez, ter ganho em competências pessoais e versatilidade”. Não obstante, na sua opinião, o que realmente conta é a demonstração de capacidade de adaptação, comprometimento e desenvolvimento de trabalho.

Deste mandato, tendo presente as atividades desenvolvidas, Miguel destaca o "Transformar", o "Prémio Farmácia Sacoor - Como acrescentar valor à farmácia comunitária" e o Congresso AEFFUL. Elaborando por ordem, o “Transformar” foi a grande atividade do DICAS (Departamento de Intervenção Cívica e Ação Social), juntando a comunidade estudantil para ajudar a Fundação AFID na reabilitação das suas infraestruturas, durante um fim de semana. Por sua vez, o Prémio Farmácia Sacoor trouxe uma perspetiva nova de como funcionam as farmácias e incutiu aos participantes um desafio no tema da gestão das farmácias, que não é muito aprofundado no plano curricular. Por fim, o Congresso AEFFUL, cujo tema foi a vacinação, mudou o seu paradigma exclusivamente científico para passar a incorporar uma vertente mais globalizada, promovendo a discussão nas áreas da ciência, investigação, saúde pública, epidemiologia e farmacovigilância.

De facto, “a AEFFUL sempre se destacou por uma representação externa forte, em áreas muito diversificadas, desde o setor farmacêutico, à ação social, ao desporto universitário, à política educativa no ensino superior”, acrescenta. Paralelamente, a grande panóplia de atividades é também uma característica da associação, “devendo ser reduzida em número, mas não necessariamente em áreas de trabalho”. Neste momento, o Presidente aponta o panorama financeiro como um dos maiores problemas da AEFFUL, estando agora a reerguer-se após um período de notificações fiscais de dívidas referentes a mandatos anteriores. Para o futuro, o maior desafio da associação será a “implementação de um sistema que consiga garantir uma efetividade e rendimento de trabalho progressivamente superior por intermédio da realização de um sistema contínuo de autoavaliação, permitindo gerar dirigentes associativos mais capazes ano após ano”, conclui.

Entrevista a Miguel Santos, Presidente Cessante da AEFFUL

 

Texto elaborado por: Sara Alcarpe, FFULisboa

Experiências Internacionais

20180125 erasmus-header-960_tcm44-94793.jpg
Façam Erasmus!
— Gabriela Ribeiro, FFULisboa

 

 

 

 

"Quando oiço a palavra “Erasmus”, automaticamente sorrio. Lembra-me a melhor experiência
que tive até hoje, sem dúvida. Mal sabia eu, quando embarquei naquele avião para
Nottingham, o que me esperava nos meses seguintes: e não falo só das festas! Claro que o que toda a gente associa a Erasmus são as festas e todas as viagens que se fazem, mas a verdade é que a experiência é muito mais do que isso. As festas e as viagens são importantes, é lógico, e nunca antes eu tinha tido tantas em tão pouco tempo, mas aquilo que realmente me marcou foi o que eu descobri sobre mim e desconhecia: a minha capacidade de adaptação. Tirem-vos a rotina e as pessoas que estão habituadas a ver todos os dias e vocês vão ter de se adaptar. Vão criar novas rotinas, porque vão passar a ir a novos cafés e a caminhar por diferentes ruas, e quando dão por vocês, estão agora a ver algumas das caras novas a quem se apresentaram em inglês cada vez mais frequentemente, cada vez mais dias por semana, até que percebem que eles são mesmo vossos amigos. E passado umas semanas deixam de ter saudades do café onde iam na vossa terra, porque agora gostam mais do lanche que há naquele pub, e deixa de ser estranho conduzir do lado esquerdo da estrada e jantar às cinco da tarde e entrar numa discoteca às dez da noite porque agora vocês pertencem àquele novo sítio, e são felizes. E a magia de Erasmus é mesmo essa, é entregarmo-nos à cidade que nos acolhe por uns meses, é criarmos lá raízes sem que nos apercebamos, e é irmos embora sem dar conta que o tempo passou e regressar a casa tristes por partir, mas orgulhosos daquilo que vivemos e com o coração cheio. Façam Erasmus!"

Entrevista a Gabriela Ribeiro, FFULisboa

Texto produzido por: Sara Alcarpe, FFULisboa

 

Associativismo Internacional - Entrevista a Luka Šrot

sidebar-WHA-EN.png

(EN)

Luka Šrot

IPSF Policy Coordinator 2017/2018
Immediate Past Chairperson of the European Regional Office (EuRO) of IPSF 2016/2017

The opinions expressed herein do not necessarily reflect those of IPSF.

 

1) Can you describe the World Health Assembly (WHA) from an organization point of view?

Certainly. As the leading global organisation for pharmacy students and recent graduates, a large part of IPSF advocacy work from my experience is done in relation to the World Health Organization, with whom IPSF has been in official relations for a few years now. Broadly, we can divide the WHA into two different, but connected tracks – the first one is the plenary sessions and the second one is the various side events on hot topics that take place during the WHA. Of these, some are at the venue itself, while some are hosted in connected institutions and it is all these events that are of particular interest to us. Organized by various NSA stakeholders and sometimes Member States, they provide excellent insights into current events and open up opportunities for networking and collaboration. Naturally, IPSF will also always have sufficient presence at the plenaries to ensure being able to intervene when appropriate.

2) How can a pharmacy student get involved and what does it imply?

Any pharmacy student that is either a member of an IPSF Member Association or an Individual Member may apply to be a part of the IPSF delegation to the WHA. These applications are usually done early in the year of the WHA in question. To be successful, you would need to exhibit certain knowledge on global health and other issues, as well as be able to clearly articulate what is it you can contribute to the delegation and likewise, what are your expectations. To make our presence as efficient as possible, we would divide tasks amongst delegation members, which are in turn expected to take their roles seriously. Based on previous experience though, there is always enough leeway for students to participate in events they themselves find interesting and the mandatory assigned presences are usually at most one every two days for each delegate.

3) Why should a pharmacy student or recent graduate be part of IPSF delegation at WHA? 

I would say first and foremost, it is an excellent opportunity to be present at what is perhaps the largest global health event of the year, every year. By being a part of it, delegates can expect several things – expanded network, new knowledge and new skills are just some of the possible outcomes. I have often noticed participating students retain their interest in global health after the event and make an effort to stay in the loop. Many students also decide to apply for a position in IPSF Team afterwards, in the Public Health portfolio or elsewhere. Currently, IPSF has many exciting workstreams with WHO which are relevant to pharmacists. Delegates can learn a large portion of that through their participation.

4) What were the statements presented by IPSF at the 70th WHA and what are their purposes?

The topics on which the statements were made, were on the shortage of and access to vaccines and medicines, the health of migrants, the global health action plan on the public health response to dementia, the Strategic Approach to International Chemicals Management (SAICM), polio transition planning and SSFFC medical products. The content is naturally different depending on the topic, but they all have the connecting theme of pointing out the benefits to public health when properly positioning pharmacists in the health workforce, even pharmacy students and recent graduates. Some statements also included specific previous work done by IPSF to advance these global action plans or to build on certain frameworks. Essentially, they all serve the purpose of affirming the importance of the future pharmaceutical health workforce in the global and public health field, maximizing positive outcomes for patients and the general population worldwide.

5) What was the major challenge and the highest achievement for IPSF at WHA?

One of the major challenges for myself personally was definitely managing the responsibilities of the delegation, which I must mention was a team effort and I am thankful to Sabrine Chengane and Israel Bimpe for what we were able to accomplish as the managing team. To make this management easier, it was important for us to realize there are a lot of open topics and discussions on the table and even with a 30-something strong delegation, we needed to prioritize and focus on topics where we can be most impactful. I suppose picking the highest achievement is a bit subjective, but I would say the talks we had with WHO representatives on IPSF's participation in the Fourth Global Forum on Human Resources for Health in Dublin this November. During my term as the Chairperson of EuRO, we managed to identify additional possible collaborative workstreams after WHA in this regard, which I hope to help build this year as the Policy Coordinator as well.

6) What is the feeling of speaking in name of all pharmacy students for the Assembly? 

It truly is a one of a kind opportunity. Shortly before your turn, you start thinking of all the work that led up to that point, both in your life and in the team when preparing statements. Practically all our statements were a team effort, so the speaker has the duty to their team, too – to ensure the message is carried across properly and that the work ultimately paid off. Afterwards, it was really exciting to see some Member States delegates giving positive feedback, then we are always counting on Member States picking up on some of the points we get across to perhaps spark a change in how certain things are done. It also helps to mention the statement whenever possible when talking to other participants afterwards, to help it stick.

7) “Students Today, Pharmacists Tomorrow” ... How do you believe this event and all IPSF projects can influence and help us to be not only "students today" but better "pharmacist tomorrow"?

One thing I have noticed as a pharmacy student is that we are generally well-versed in natural sciences and in patient-related work, but pharmacy curricula generally exclude meaningful education on global and/or public health, and you can find articles published on exactly this topic, too. Delegates who participate at WHA therefore have a unique opportunity to improve their knowledge on these matters and gain what you might call an »edge«. Healthcare is a continuously evolving topic and it is very important to stay informed and see the bigger picture, as it is the only way our skills will really shine in the future. Participation at WHA can therefore build a positive habit of investing personal effort in order to stay on top of these events. Of course, it helps the organisation too, as the global floor is a considerably large audience which your message can potentially reach.

8) And lastly, do you have a message to encourage students to get involved with IPSF activities? 

Looking back, some of the most exciting experiences in my student life have come as a direct result of being involved with IPSF. I am sure by now, many of your students are familiar with SEP, as I know APEF is one of the most active associations in terms of incoming and outgoing students. SEP is already a great way to gain additional professional expertise, connections and soft skills. Then, whether you involve yourself in IPSF-initiated projects locally and nationally or decide to participate in the IPSF World Congress and apply for a position in the IPSF Team, you will certainly not regret the time and resources invested. I think it is very safe to say that all this extra work is well worth it, as it eventually helps you stand out in the labour market and find your niche.

 



(PT)

Luka Šrot

Coordenador da Política da Federação Internacional de Estudantes de Farmácia (IPSF) do mandato de 2017/2018
Chairperson do European Regional Office (EuRO) da IPSF no mandato de 2016/2017

As opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as da IPSF.

 

1)     Pode descrever a Assembleia Mundial de Saúde (WHA), do ponto de vista da Organização?

Sim, claro. Pela minha experiência, uma grande parte do trabalho de advocacia da IPSF, enquanto organização global líder para estudantes de Ciências Farmacêuticas e recém-formados, é feita com a Organização Mundial de Saúde (OMS), com a qual mantém relações oficiais há já alguns anos. De um modo geral, é possível dividir a WHA em dois caminhos diferentes, mas interligados – o primeiro, com as sessões plenárias, e o segundo, com os vários eventos paralelos sobre os tópicos do momento que ocorrem durante a WHA. Destes eventos, alguns decorrem no próprio local, enquanto outros têm lugar em instituições parceiras e são todos esses eventos que nos interessam particularmente. Organizados por vários intervenientes da NSA (n.t. Non-state Actor) e, por vezes, por Estados membros, estes eventos fornecem informações excelentes sobre os acontecimentos atuais e abrem ainda oportunidades de colaboração e trabalho em rede. Naturalmente, a IPSF estará sempre presente nas sessões plenárias, de modo a garantir a possibilidade de intervenção, sempre que necessária.

2) De que forma podem os estudantes de Ciências Farmacêuticas envolver-se na IPSF?

Qualquer estudante de Ciências Farmacêuticas que faça parte de uma associação membro da IPSF ou, a título individual, pode candidatar-se para integrar a delegação da IPSF na WHA. Estas candidaturas são normalmente feitas no início do ano de realização da WHA. Para ser bem sucedido, é fundamental que o candidato demonstre ter algum conhecimento em saúde global, entre outros domínios, bem como ser capaz de expor de forma clara o contributo que pode vir a dar à delegação e ainda partilhar as suas expectativas. No sentido de tornar a nossa presença o mais eficiente possível, dividimos as tarefas inerentes a este evento entre os membros da delegação e esperamos que cada um deles as “leve a sério”. Tendo presente as edições anteriores, há sempre margem suficiente para que os estudantes possam participar em eventos que eles próprios considerem interessantes, sendo que é normalmente atribuída uma presença obrigatória a cada dois dias, a cada delegado.

3)    Que razões podem levar um estudante de Ciências Farmacêuticas ou um recém-formado a fazer parte da delegação da IPSF na WHA?

Eu diria, em primeiro lugar, que o mais importante é a excelente oportunidade de estar presente naquele que é possivelmente o maior evento de saúde global do ano, realizado todos os anos. Sendo parte integrante deste evento, os delegados podem esperar adquirir um network alargado, novos conhecimentos e novas competências, etc. Muitas vezes, apercebi-me de que os estudantes mantêm interesse na temática da saúde global, mesmo depois do evento, fazendo um esforço para se manterem atualizados nesta área. Muitos estudantes decidem ainda candidatar-se a um cargo na equipa da IPSF, no portefólio da Saúde Pública, ou a outros cargos. Neste momento, a IPSF tem muitos projetos entusiasmantes a decorrer em parceria com a OMS, que são de extrema relevância para os farmacêuticos. Os delegados têm oportunidade de aprender uma grande parte desses importantes conteúdos durante a sua participação na WHA.

4) Quais foram as declarações prestadas pela IPSF na 70ª edição da WHA e quais os principais propósitos?

Os tópicos abordados nas declarações feitas pela IPSF nesta edição da WHA foram a falta e a dificuldade de acesso a vacinas e medicamentos, a saúde dos migrantes, o plano de ação de saúde global na resposta da Saúde Pública para a demência, a “Abordagem Estratégica para a Gestão Internacional de Químicos” (SAICM), o plano de transmissão da poliomielite e os produtos médicos substandard, spurious, falsely labelled, falsified and counterfeit (SSFFC). O conteúdo é naturalmente diferente, dependendo do tópico, mas com todos eles pretende-se apontar os benefícios para a Saúde Pública quando os farmacêuticos, recém-formados ou estudantes de Ciências Farmacêuticas são devidamente posicionados na força de trabalho na área da Saúde. Algumas declarações também incluíram conteúdo específico anteriormente elaborado pela IPSF, com vista à melhoria dos planos de ação global e à construção de determinados enquadramentos. Essencialmente, todas as declarações permitiram afirmar a importância da futura força de trabalho farmacêutica na Saúde Pública, a nível global, maximizando os resultados positivos para os pacientes e para a população em geral de todo o mundo.

5) Qual foi o maior obstáculo e a maior conquista da IPSF na WHA?

Pessoalmente, para mim um dos maiores obstáculos foi, sem dúvida, gerir as responsabilidades da delegação, tendo que referir que foi um esforço de equipa e tenho de agradecer à Sabrine Chengane e ao Israel Bimpe pelo que eles alcançaram como responsáveis logísticos. Para tornar a logística mais fácil, foi importante apercebermo-nos de que há muitos tópicos abertos e discussões na mesa e, mesmo tendo uma delegação com 30 e tal delegados, precisámos de priorizar e focar em tópicos onde podemos ter maior impacto. Considero que escolher a maior conquista é um pouco subjetivo, mas eu diria que foram as conversas que tivemos com os representantes da OMS na participação da IPSF no 4º Fórum Global dos Recursos Humanos para a Saúde, em Dublin, este novembro. Durante o meu mandato como Chairperson do EuRO, conseguimos identificar possíveis novas colaborações no decurso da WHA e espero poder contribuir na criação destas, este ano, como Policy Coordinator.

6) Como te sentes por poder falar em nome de todos os estudantes de Ciências Farmacêuticas na Assembleia?

É verdadeiramente uma oportunidade única. Pouco antes da intervenção, começas a pensar em todo o trabalho que levou àquele ponto, tanto na tua vida, como na da equipa quando preparámos as declarações. Praticamente todas as nossas declarações foram um esforço de equipa, tendo o porta-voz responsabilidades para com a sua equipa – tem que garantir que a mensagem correta é passada e que o trabalho feito valeu a pena. Depois, foi muito entusiasmante ver alguns dos delegados dos Estados membros a dar feedback positivo a alguns dos tópicos que colocámos em questão e que talvez tenham incitado a mudança na forma como certas coisas são feitas. Discutir as propostas feitas com outros participantes durante a WHA também ajuda a reiterar a mensagem.

7) “Students Today, Pharmacists Tomorrow”… Como acha que este evento e todos os outros projetos da IPSF podem influenciar e ajudar-nos a ser não só “estudantes hoje”, mas também melhores “farmacêuticos amanhã”?

Uma das coisas que sinto como estudante de Ciências Farmacêuticas é que normalmente temos boas capacidades a nível das ciências exatas e da relação com o doente, mas que o plano de estudos normalmente exclui formação fundamental sobre saúde global e/ou pública, podendo mesmo encontrar artigos que atestam isto mesmo. Os delegados participantes na WHA tiveram a oportunidade única de aumentar o seu conhecimento nesta área e adquirir uma perspetiva alargada. Os cuidados de saúde são um tópico em evolução contínua e é muito importante que nos mantenhamos informados e que vejamos as coisas nessa perspetiva alargada, sendo esta a única forma de fazer as nossas capacidades brilharem no futuro.

A participação na WHA pode, assim, construir um hábito positivo de investimento pessoal que complementa uma lacuna existente na nossa formação. Por outro lado, claro que este contributo também ajuda a própria IPSF, uma vez que conseguimos levar a nossa mensagem a uma plateia maior.

8) Por fim, tem alguma mensagem para encorajar os estudantes a envolverem-se nas atividades da IPSF?

Olhando para trás, algumas das experiências mais entusiasmantes da minha vida de estudante foram consequência direta do meu envolvimento na IPSF. Hoje, estou certo de que muitos dos estudantes portugueses estão familiarizados com o Student Exchange Programme (SEP) porque a APEF é uma das associações mais ativas, tanto a nível de estudantes incoming, como de outgoing. O SEP é uma excelente forma de ganhar experiência profissional adicional, contactos e soft skills. Quer te envolvas em projetos da IPSF a nível local ou nacional, se decidires participar no Congresso Mundial da IPSF, ou candidatares-te a fazer parte da equipa da IPSF, podes ter a certeza de que não te vais arrepender do tempo e recursos investidos. Acho que é seguro dizer que todo este trabalho extra vale a pena, já que ajuda eventualmente a destacares-te no mercado de trabalho e a encontrar a tua oportunidade ideal.

IPSFLogo-cover_02-Twitter.png

Texto produzido por: Carolina Lopes, FCS-UBI

 

Individual Mobility Project - Testemunho

1.png

"Desde o início do mês de novembro, tenho tido a oportunidade de fazer parte da Mylan no Departamento de European Policy and Market Access, em Bruxelas, através do IMP Placement da EPSA. Descobri este programa através da divulgação nas redes sociais da EPSA e, como o timing coincidia com o final da minha posição anterior, decidi concorrer. Após uma fase de seleção da parte da EPSA, coube à empresa fazer a seleção final dos candidatos através de respostas a perguntas em vídeo e de uma entrevista presencial, após a qual fui selecionado. Devo à minha experiência associativa, em especial no NEF/AAC e na APEF, este resultado, pois foi nestas estruturas que desenvolvi o meu interesse pela área de Health Policy que, infelizmente, pouco é abordada no âmbito do plano curricular do MICF na FFUC (e na maior parte das restantes faculdades em Portugal). Ter que trabalhar estes tópicos a nível nacional e internacional fez-me estar à vontade não só com muitos dos temas, mas também com o conhecimento das próprias estruturas de policy making em Saúde e sobre como defender/analisar/criticar estas temáticas.

Este programa (IMP) é uma excelente oportunidade para recém-graduados, pois estabelece a ponte entre o jovem profissional e a empresa, mas também permite uma grande flexibilidade (se não total) na negociação entre o profissional e o empregador, no que toca às condições do contrato.

O meu conselho aos estudantes que estiverem a ler esta revista, desta fantástica associação que é a APEF, é o mesmo de sempre: Envolvam-se. Pesquisem e informem-se sobre organizações e estruturas nacionais e internacionais nas quais podem concorrer aos seus programas, ou até participar na suas estruturas. Uma das grandes beneces desta participação ativa é o crescimento e desenvolvimento pessoal, e, com isto, tudo o resto virá."

Paulo Mendes

 

DHH_Ng5XcAAhXFn.jpg

Texto produzido por: Sara Alcarpe, FFULisboa

Twinnet - Intercâmbio entre os estudantes do Porto e Nis, na Sérvia

Este ano, a Associação de Estudantes da Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto (AEFFUP) voltou a inovar, desenvolvendo um projeto de intercâmbio internacional onde estudantes de Ciências Farmacêuticas de vários países puderam interagir entre si. Falamos do Twinnet que, no ano de 2017, uniu futuros farmacêuticos do Porto e de Niš, na Sérvia.

Numa primeira etapa, os estudantes sérvios vieram conhecer a cidade do Porto. Desde passeios pelo Palácio de Cristal e pela Ribeira a workshops de soft-skills dados por um EPSA trainer, estes tiveram a oportunidade de conhecer melhor a cidade e contactar com a cultura portuguesa. Aos estudantes do Twinnet foi dada ainda a possibilidade de contactarem com projetos de investigação desenvolvidos na nossa faculdade, sendo um deles, por feliz acaso, lecionado na sua língua por uma estudante sérvia a estagiar na FFUP. Para complementar toda esta experiência, e como seria de esperar, foi organizada uma noite internacional para receber estes estudantes, o que permitiu tanto partilhar iguarias culinárias e bebidas típicas dos dois países, como também aprender danças características da Sérvia e de Portugal.

Numa segunda etapa, os estudantes portugueses viajaram até Niš, uma cidade acolhedora que proporcionou vários momentos repletos de história por entre museus e a sua emblemática fortaleza à beira-rio, bem como inúmeras visitas à faculdade com o intuito de, mais uma vez, ficar a conhecer os projetos de investigação que por lá se têm desenvolvido. Os estudantes tiveram ainda oportunidade de explorar o pequeno campo de concentração Nazi e ficar a conhecer uma casa de produção de vinhos perto da cidade. Como não poderia faltar, também houve tempo para provar os sabores gastronómicos dos nossos amigos sérvios, através da tão esperada noite internacional. Esta noite foi recheada de danças, conversas e diversão, tornando-se numa bela noite de partilha cultural.

O Twinnet permitiu-nos estabelecer ligação com realidades de estudantes de farmácia de um ponto tão diferente da Europa e participar numa experiência internacional inesquecível, em que criámos memórias e estabelecemos laços que irão, certamente, ficar para a vida. Por nos terem proporcionado tudo isto, gostaríamos de congratular o Departamento de Relações Internacionais da AEFFUP pela bem-sucedida implementação deste projeto no Porto e esperamos que esta iniciativa se possa repetir nos anos vindouros.

Texto produzido por: João Guedes e Beatriz Fernandes, FFUP
 

twinnet.PNG

Através do SEP uma centena de estudantes portugueses de farmácia trocaram experiências com os colegas no estrangeiro

Somos a Ana Patrícia e o Rodrigo Borrega e fizemos SEP em Ljubljana, na Eslovénia. O nosso estágio teve a duração de um mês na Faculdade de Farmácia de Ljubljana, na área de Sócio Farmácia.
A Eslovénia é um país perfeito para SEP. Tem uma localização fantástica que te permite conhecer outros países, sendo que nós tivemos oportunidade de visitar Itália, Croácia e Áustria, todos a duas horas de distância de Ljubljana. Além disso, o custo e a qualidade de vida são bastante semelhantes aos de Portugal e a Eslovénia é um país magnífico com paisagens e locais lindos.
Fazer SEP é uma experiência que te permite conhecer pessoas de países muito diferentes e contactar com diferentes culturas. Nós tivemos a oportunidade de conhecer pessoas extraordinárias de países como a Eslováquia, Turquia, Polónia, Croácia, Espanha, Argélia e Holanda. Decidimos fazer SEP e agarrar esta possibilidade para abrirmos os nossos horizontes e conhecer novas culturas, aliando também o interesse em conhecer e visitar novos locais.
O SEP foi sem dúvida uma experiência que correspondeu às nossas expetativas e voltaríamos a repeti-la. Apesar de tudo, existem sempre coisas que podem ser melhoradas. Na nossa opinião, seria importante haver uma maior interação entre os estudantes de SEP e os estudantes da Eslovénia. Todos os fins de semana eram realizadas trips, com a comissão de SEP da Eslovénia, a locais emblemáticos do país. Contudo, achamos que seria bom organizar outras atividades durante a semana, uma vez que os estágios são normalmente de quatro a seis horas, o que nos permitia ter uma parte das tardes disponível.
Considerando todos os fatores, o balanço final é muito positivo e aconselhamos a todos aqueles que pensam em fazer SEP que agarrem essa oportunidade. Vais poder conhecer sítios únicos, contactar com culturas diferentes e viver novos desafios. Por isso, faz SEP! 😊

Adijo! (Adeus!)
— Ana Patrícia Gomes e Rodrigo Borrega, FFULisboa
SEP.PNG

SEP em Portugal - "Ah, deixei o meu coração em Lisboa."

SEP.jpg

 

Todos anos, através do Student Exchange Programme, um programa da Federação Internacional de Estudantes de Farmácia (IPSF) e dos seus membros, vários estudantes de farmácia e ciências farmacêuticas visitam Portugal numa troca de experiências culturais e profissionais.

Foi uma das melhores experiências de toda a minha vida! Os primeiros dias foram uma mistura de enorme entusiasmo e puro terror. Sentia-me perdida, tudo parecia parte de um sonho e não a realidade e esse sentimento acompanhou-me durante esses primeiros dias. 

Mas tanto aconteceu a partir daí e todos os medos e preocupações passaram. Acabei por não querer ir embora!

Penso que seja a atmosfera descontraída ou talvez a deliciosa “francesinha”, ou então mesmo as pessoas e a sua atitude acolhedora e “terra-a-terra” que fazem de Portugal um sítio onde se quer ficar – seja qual for a razão, apaixonei-me por este país!

Portugal deu-me tantas impressões sobre diversos aspetos da vida e nunca irei esquecer nenhuma delas.

Sim, eu viajei sozinha mas encontrei a melhor companhia lá; amizades que espero serem para toda a vida! Não consigo estar grata o suficiente por todas as pessoas que se cruzaram no meu caminho e que tornaram a minha estadia nesta experiência tão fantástica. Ah, deixei o meu coração em Lisboa.

Obrigada, Lisboa! Muito obrigada, Portugal, por tudo!
— Merna Yasser, Egito

Pedro Baptista, o jovem Farmacêutico que cria órgãos em laboratório

A geração do primeiro fígado humano feito em laboratório foi o resultado mais impactante a nível mundial.
— Pedro Baptista, Aragon Health Sciences Institute
Pedro_Baptista3.jpg

REFlexus (REF): Pode falar-nos um pouco do seu percurso profissional desde que finalizou os estudos na Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa até ao presente? Como entrou em contacto com o campo da investigação científica? 

Pedro Baptista (PB): Após a Licenciatura em Ciências Farmacêuticas pela Universidade de Lisboa (2001), estava cansado de livros e quis ver como era o mundo do trabalho fora do ambiente académico. Acabei por ir trabalhar para a divisão portuguesa da Eli Lilly & Co, como monitor de ensaios clínicos. Foi uma experiência fantástica! Não só pelas pessoas com quem trabalhei e pelo que aprendi, mas também pelo que cresci como profissional. O mundo fora da universidade é bem diferente! Especialmente numa grande empresa multinacional. Ao longo desse ano, acabei por decidir concorrer ao Programa Gulbenkian de Doutoramento em Biomedicina (o sonho acabou por ser mais forte…) e fui selecionado, já em 2002. A partir daí, com a ajuda das aulas e dos contactos que tivemos ao longo do primeiro ano académico no Instituto Gulbenkian de Ciência, foi fácil perceber qual a área que mais me apaixonava – a Medicina Regenerativa e as Células Estaminais. Em maio de 2003, fui aos Estados Unidos da América visitar vários laboratórios, incluindo o laboratório do Dr. Anthony Atala, na altura na Harvard Medical School, em Boston. Um pouco antes de viajar para Boston, o Tony contactou-me para me avisar que estava a mudar-se de “armas e bagagens” para a Wake Forest University, na Carolina do Norte (CN), onde ía “montar” um Instituto dedicado à Medicina Regenerativa. Coincidente com a minha chegada a Winston-Salem, na CN (2004), onde permaneci quase 10 anos (até 2013), ajudei a construir um dos maiores Institutos de Medicina Regenerativa do mundo. Uma aventura e, sem dúvida, uma oportunidade para aprender e conviver com pessoas e investigadores fantásticos. Chegado ao fim do post-doc, decidi voltar a casa. Devido à falta de pontaria, aterrei em Espanha, no ano de 2014. Foi em Zaragoza, para ser mais preciso, onde tive a oportunidade de criar o meu próprio grupo de investigação dedicado à Bioengenharia de Órgãos e Medicina Regenerativa. O início foi duro, em plena crise económica em Espanha. Mas a persistência, a fé e o trabalho compensaram. Hoje, somos ao todo nove pessoas (um post-doc, quatro estudantes de doutoramento, um estudante de master, duas research associates e eu, como chefe de grupo).

REF: Porquê a área de Bioengenharia de Órgãos? Curiosidade pelo tema ou vontade de aplicar a Bioengenharia nas áreas da saúde e procurar resolver os problemas e desafios que esta área enfrenta inevitavelmente?

PB: A área da Bioengenharia surgiu quase como um desafio quando comecei o meu doutoramento. Na altura, a possibilidade de fazer um fígado ou qualquer outro órgão sólido, desde o zero, era quase inexistente. No entanto, uma vez lançado o desafio pelo Tony, procurei alternativas à tecnologia existente e a escolha do fígado deve-se um pouco ao meu fascínio como farmacêutico por este órgão, como o principal responsável pela metabolização de fármacos e metabolismo em geral. A consequência direta destas escolhas, realizadas em 2004, foi o primeiro fígado humano feito em laboratório, cinco a seis anos depois. Assim, a minha decisão foi condicionada, num primeiro momento, pelo desafio lançado pelo meu mentor de doutoramento, mas também pela minha curiosidade e interesse pela Medicina Regenerativa e Células Estaminais na resolução da escassez de órgãos para transplante em doentes que esperam anos por um órgão que, muitas vezes, nunca chega... É quase uma obrigação para nós aliviar ou eliminar este verdadeiro flagelo. É esse o objetivo a longo prazo do meu grupo de investigação. É esse o meu objetivo pessoal de carreira como investigador.

REF: Até à data, qual dos resultados das suas investigações considera ter tido maior impacto no avanço da área em questão? 

PB: Creio que, até à data, a geração do primeiro fígado humano feito em laboratório foi o resultado mais impactante a nível mundial. Pelo que desvelou como possível e pelo que deixou antever para o futuro. Atualmente, há projetos em desenvolvimento no grupo, talvez até mais importantes, que esperamos que possam dar um contributo muito positivo nesta e noutras áreas a muito curto prazo.

REF: Atualmente qual é o foco/objetivo da equipa de investigação que lidera no Instituto de Investigação Sanitário de Aragão (IIS Aragão)? 

PB: Presentemente, temos várias linhas de investigação em desenvolvimento, tal como mencionado atrás. O nosso objetivo principal continua a ser a translação, para a clínica, dos fígados de Bioengenharia para o transplante em doentes humanos. Contudo, devido à complexidade e multidisciplinaridade deste projeto, estamos a desenvolver muitas outras linhas e projetos de investigação que ajudam na realização e concretização deste. É impensável gerar um fígado humano in vitro sem ter a capacidade de gerar biliões de células hepáticas a partir de um doente. É impensável gerar um fígado humano in vitro sem ter biorreatores avançados que permitam fazer uma monitorização constante dos tecidos e células nele contidos, etc, etc. Assim, há nesta altura vários projetos próprios e de colaboração com outros grupos de investigação internacionais para resolver estes desafios e tornar assim possível o principal objetivo do grupo: criar um fígado humano de Bioengenharia que possa ser transplantado num doente humano e, de um modo mais lato, curar e regenerar doentes hepáticos. Seja com um fígado feito em laboratório, seja com células estaminais hepáticas.

REF: Como é que no seu dia a dia conjuga o trabalho de investigação científica com o cargo de Professor assistente no Departamento de Engenharia Biomédica e Aeroespacial na Universidade Carlos III, em Madrid? 

PB: Na verdade, não é difícil. Como tenho a sorte de ter alguns elementos mais séniores (post-doc) no grupo de investigação, são eles que fazem a gestão do laboratório no dia a dia e ajudam os alunos mais júniores. É verdade que o primeiro semestre é sempre mais duro para conjugar todo o trabalho de investigação com viagens, projetos e aulas. Ainda assim, como dar aulas sobre a minha área de trabalho é algo de que gosto muito, faço-o com todo o prazer. Ainda para mais porque o convívio com os alunos brilhantes, aos quais tenho o privilégio de dar aulas, me ajuda a estimulá-los na investigação em Biomedicina e, às vezes, a recrutar alguém para o laboratório!

REF: Qual considera ser a próxima etapa a alcançar no ramo da Bioengenharia de Órgãos e das terapias direcionadas para a regeneração do fígado, pâncreas e rins?

PB: Acho que estamos a chegar a uma fase muito interessante nesta área. Já começam a despontar a nível clínico/experimental algumas terapêuticas celulares que têm alguma efetividade para reparar estes órgãos, o que abre novas possibilidades. Isto, pois evita o transplante e diminui o problema permanente da escassez de órgãos disponíveis - algo com que todos os países se debatem há muitos anos. Na frente da Bioengenharia destes e outros órgãos, nós e outros grupos, estamos já a trabalhar em modelos animais mais próximos do humano, como o porco. Talvez por isso, e pelos resultados que começamos a vislumbrar no laboratório e nestes animais, não seja difícil de prever que este tipo de terapêuticas sejam o “standard of care” daqui a uma ou duas décadas. Gerar um fígado ou um rim de Bioengenharia com as células do doente afetado evitará a necessidade de usar fármacos imunossupressores e assim, assegurar uma verdadeira cura ou resolução da doença original, sem introduzir outra: efeitos secundários da imunossupressão. É uma verdadeira revolução no paradigma da Medicina. Para tal, o que nos falta, mais que ideias e know-how, são recursos. Para resolver muitos dos problemas de produção, de acordo com a legislação (GMP, regulatory issues, etc.), são necessários imensos recursos financeiros. Não penso que nos saia a lotaria tão depressa… mas, pelos doentes e pelos seus familiares, seria bom que isso acontecesse. Não é por falta de trabalho, nem de empenho na procura de recursos que realmente ainda não temos e que são tudo o que necessitamos para tornar estes sonhos e ideias numa realidade terapêutica.

REF: Quais foram as dificuldades que sentiu ao enveredar por um caminho pouco explorado pelos farmacêuticos? Foi difícil afirmar-se como um farmacêutico investigador?

PB: Sinceramente, não senti muitas dificuldades. Bem pelo contrário! Talvez porque ao entrar num programa de doutoramento integrado, com seminários e cursos, eu tive a oportunidade de refrescar conhecimentos e aprender sobre áreas que desconhecia. Acho que este ponto, a capacidade de entender e assimilar conteúdos pouco ligados à área farmacêutica, demonstra a qualidade e transversalidade do curriculum de Ciências Farmacêuticas, pois detinha os conhecimentos básicos essenciais para poder entender estas matérias. Quanto à afirmação como farmacêutico investigador, creio que esta surgiu naturalmente como consequência da minha atividade. Quando ficou claro que a investigação em Medicina Regenerativa era a minha área de eleição, acabei por tomar os passos necessários à minha independência como investigador. Aqui, pouco importou a minha formação de base (farmacêutico). Contou, isso sim, o curriculum e as ideias que tinha desenvolvido.

REF: Quais considera serem as principais características que um jovem investigador deve apresentar para ter sucesso nesta área? Pode deixar alguns conselhos para os nossos leitores estudantes do MICF que pretendam fazer carreira em Investigação? 

PB: Motivação, vontade (“ganas”), excelente capacidade de trabalho e, o mais importante, muita curiosidade e amor à arte. Pelo volume de trabalho e pela dedicação necessária nesta área, não creio que seja possível fazê-lo sem ter realmente uma paixão muito forte pela ciência e investigação. Até porque o salário que recebemos não está ao nível de outras áreas da profissão farmacêutica (ainda que não me possa queixar). No entanto, creio que, com estes atributos, se pode formar um investigador. Ou, mais do que isso, um cientista de corpo e alma.
Por último, e falando um pouco de carreiras, há algo importante que merece ser referido. Nas próximas décadas, com a eliminação de muitas profissões devido à automação e robótica, esta é uma área em que a Inteligência Artificial, ainda que benéfica, não terá um impacto potencialmente tão nefasto e pesado na supressão de postos de trabalho. Algo a considerar para quem termina a sua formação e procura uma área para crescer.

REF: Como vê o futuro da investigação científica em Portugal? Quais os maiores desafios que os investigadores científicos enfrentam no nosso país? E internacionalmente?

PB: Sinceramente, e numa visão à distância, acho que o maior desafio que a investigação nacional enfrenta é a estabilidade: a nível de recursos financeiros, investimento e de recursos humanos. É difícil manter uma equipa produtiva a funcionar quando nalguns anos há calls para projetos, e noutros não... Devido a esta inconstância, é imprescindível um pacto de governação entre os vários partidos da Assembleia da República, que permita que o orçamento para a Ciência e Tecnologia se mantenha em crescimento moderado durante cinco anos, ou pelo menos, estável. Creio que uma medida deste género protege a investigação e o desenvolvimento, bem como a aposta e o sacrifício pessoal que tantos investigadores em Portugal fazem ao longo das suas carreiras ao escolherem ficar ou voltar a casa. Não é uma medida com custos elevados e creio que os partidos da Assembleia facilmente poderiam aprovar algo assim… mas, como a miopia é normalmente grande em relação à Ciência, assim vamos. Internacionalmente, acho que, nos últimos dois anos, as coisas estão finalmente a estabilizar e a melhorar um pouco. A crise eliminou muitos postos de trabalho nesta área e as equipas foram forçadas a “emagrecer”. Há agora uma espécie de caminho inverso a percorrer. Finalmente. Mais fundos disponíveis, mais calls de projetos e uma sensação de que o pior já está para trás. Talvez por isso, seja um bom momento para quem tem ganas, curiosidade, etc. (qualidades referidas na pergunta anterior) de ganhar coragem e decidir fazer um doutoramento. O momento, esse, é propício!

Texto produzido por: Raquel Alcarpe

equipa de investigação.PNG

Estudantes de Saúde reforçaram a sua colaboração e apresentaram o Fórum Nacional de Estudantes de Saúde

No dia 28 de outubro de 2017, decorreu a cerimónia de apresentação do Fórum Nacional dos Estudantes (FNES), que teve lugar no auditório dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS) e na qual estiveram presentes a Associação Nacional de Estudantes de Medicina, a Associação Nacional de Estudantes de Nutrição, a Associação Nacional de Estudantes de Psicologia, a Associação Portuguesa de Estudantes de Farmácia, a Federação Académica de Medicina Veterinária e a Federação Nacional de Associações de Estudantes de Enfermagem, bem como a Secretária de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior e o Presidente dos SPMS.

Em primeiro lugar, a Professora Doutora Maria Fernanda Rollo - Secretária de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior- começou por congratular os membros das Associações participantes  pela realização desta iniciativa, destacando a coragem  demonstrada na conceção e defesa desta ideia e ainda todo o trabalho conjunto desenvolvido em prol das Ciências da Saúde. Não obstante, os avanços conseguidos na área da Educação, um em cada três estudantes no setor dos 20 anos não frequenta o  Ensino Superior, permanecendo também as desigualdades sociais e regionais, pelo que a convidada apelou a uma intervenção ativa e ao estímulo permanente dos estudantes  para darem continuidade  à sua formação. Por outro lado, destacou  o papel da comunidade académica enquanto parceira neste processo, que se caracteriza por uma ação persistente ao nível do empenho cívico, responsabilidades social e científica. Neste domínio, deixou a sugestão de alargar os programas de voluntariado realizados pelos futuros profissionais de saúde, para áreas com produção de conhecimento, nomeadamente, de ciência e cidadania, em que haja espaço para recolha de informação, dados científicos, com vista às “necessidades, desafios e preocupações” e de forma a ser possível dar uma resposta “mais justa, mais eficaz e com mais acuidade, com mais conhecimento e mais informada a esse nível”.  Concluiu o seu discurso com três tópicos que revelam dados preocupantes junto da comunidade estudantil e sobre os quais considera que os estudantes de Saúde devem atuar preferencialmente . Nomeadamente, ao nível da componente preventiva, quer das consequências futuras, tendo como foco os hábitos de consumos no ensino superior (drogas e álcool), a alimentação saudável e a prática de exercício físico. Neste último ponto, salientou e alertou para os níveis desastrosos de atividade física sustentados pela evidência de que o número de estudantes que realizam regularmente algum tipo de atividade física é inferior a 10%, registando-se, também, uma quebra drástica nesta prática na passagem do Ensino Secundário para o Ensino Superior. 

Seguidamente, e dando continuidade à Cerimónia, Diogo Silva, estudante de Medicina, explicou quais foram as maiores motivações para, há dois anos atrás, os membros das seis associações se juntarem com a ideia de criar um Fórum que facilitasse a comunicação entre os futuros profissionais de saúde. Unidas por este propósito, três gerações de dirigentes associativos trabalharam arduamente para hoje apresentarem este projeto promissor, com vista à implementação de  cuidados de saúde interprofissionais, interdisciplinares e baseados na colaboração. Desta forma, o doente sai mais satisfeito, assim como o profissional de saúde. Em paralelo, verifica-se uma maior eficiência do serviço, uma diminuição do erro clínico e, simultaneamente, uma maior abrangência científica. Diogo realçou que “a responsabilidade é transversal e deve ser partilhada”, começando, desde cedo, pelas escolas, que têm um papel fundamental na formação cívica e na perpetuação de vícios e mais tarde,  pelas universidades, defendendo sempre a promoção da discussão e da partilha de ideias entre as profissões.

Posteriormente, destacou a importância de as organizações profissionais, as Ordens, o Governo e os agentes decisores assumirem um papel mais focado e operacional ao nível da Saúde e ainda seguir o exemplo de profissionais que revelam ter boas práticas de saúde, sem receio de inovar, nem de ultrapassar as barreiras com que se defrontam. Com esta iniciativa, pretende-se que os estudantes estimulem as suas associações, deixem de atuar passivamente na sua atividade profissional e educação e partilhem a sua visão do futuro publicamente, numa prática interprofissional e centrada no doente. Além disso, todos eles, sem exceção, já no exercício da sua atividade profissional, deverão procurar sempre soluções, bem como suprimir as falhas que existem ao nível da Responsabilidade Social, Código Deontológico e Investigação. 

Maria Fernanda Rollo concluiu o seu discurso, evidenciando o propósito o papel que esta iniciativa assume hoje e no futuro, os seus envolventes e a mensagem que pretendem transmitir a toda a comunidade estudantil, dizendo que “este fórum é um exemplo dado pelos estudantes, de iniciativa e proatividade, em direção ao futuro que eles não querem deixar de construir.”

Manuel Talhinhas, Vice Presidente de Relações Externas da APEF, em jeito de conclusão, disse à REFlexus “Assinala-se hoje um dia muito importante. Acreditamos ser o início de algo que, a médio e longo prazo, reforçará em muito a Saúde de todos. A intercolaboração entre os profissionais de saúde não pode continuar a ser algo utópico ou difícil de concretizar, precisa de ser reforçada e a mensagem transmitida pelos estudantes é exatamente essa. Queremos, desde cedo, começar a criar sinergias que facilitem a comunicação entre os estudantes e, por conseguinte, entre os futuros profissionais”. Nesse sentido, Manuel reitera ainda que “a APEF enquanto membro do FNES irá encetar todos os esforços para que, em conjunto com as restantes associações e federações que o compõem, este possa atingir os seus desígnios e tornar os estudantes de saúde mais próximos.”

A Cerimónia de Oficialização do FNES terminou com a leitura da Carta de Princípios, que estabelece a missão do Fórum, seguida pela chamada dos presidentes das Associações ao palco para a assinatura do documento celebrado.

fnes.jpg
 Maria Fernanda Rolo, Secretária de Estado da Ciência Tecnologia e Ensino Superior

Maria Fernanda Rolo, Secretária de Estado da Ciência Tecnologia e Ensino Superior

 
 Convidados da Cerimónia

Convidados da Cerimónia

 Diogo Silva, estudante de Medicina

Diogo Silva, estudante de Medicina

 
 Henrique Martins, Presidente do Conselho de Administração da SPMS, EPE.

Henrique Martins, Presidente do Conselho de Administração da SPMS, EPE.

 
 Manuel Talhinhas, Vice-Presidente de Relações Externas da APEF

Manuel Talhinhas, Vice-Presidente de Relações Externas da APEF

 
 Assinatura do Memorando de Entendimento e Carta de Princípios

Assinatura do Memorando de Entendimento e Carta de Princípios

Texto produzido por: Catarina Gutierres e Manuel Talhinhas


Vídeo da Cerimónia de Apresentação


Galeria

"Um centro multidisciplinar na área das Ciências da Saúde" - Entrevista à Coordenadora do CICS-UBI

Para resolver os grandes desafios da sociedade é fundamental que os cientistas de diferentes áreas estejam a trabalhar em conjunto numa solução para os complexos problemas da atualidade.
— Professora Ana Paula Duarte, Coordenadora do CICS-UBI
237.jpg

REFlexus (REF): Como perspetiva a figura do Farmacêutico na investigação?

Ana Paula Duarte (APD): Um Farmacêutico numa carreira de investigação tem a possibilidade de trabalhar na vanguarda das Ciências Farmacêuticas, promovendo ligações internacionais e, seguramente, tem a possibilidade de fazer a diferença para a sociedade. Em qualquer área de investigação, dentro das Ciências Farmacêuticas, o Farmacêutico traz a mais-valia do conhecimento e da compreensão do doente.

REF: Enquanto Farmacêutica, como se sente a liderar um Centro de Investigação?

APD: Quando penso em mim, no meu papel de coordenadora do Centro de Investigação, e particularmente de um centro multidisciplinar na área das Ciências da Saúde, normalmente não associo ao facto de ser Farmacêutica. No entanto, sinto que esse aspeto está presente quando penso nas estratégias de investigação do Centro. Por outro lado, enquanto Farmacêutica, sempre que possível, tento mostrar a importância da investigação, por exemplo na formação dos Farmacêuticos.
 
REF: Em que áreas tem trabalhado o CICS-UBI?

APD: A minha área de investigação são as propriedades bioativas dos extratos de plantas em geral, e os compostos fenólicos e atividade antioxidante em particular, mas a área em que trabalho mais nos últimos quase três anos é mesmo a gestão e a coordenação, não sobrando tempo para muito mais…

REF: Quais os desafios futuros para a investigação em Portugal? Que obstáculos encontram os investigadores?

APD: Os principais desafios para a investigação em Portugal são o aumento do investimento, tanto público como privado, na investigação científica, bem como um maior estabelecimento de redes entre empresas e instituições públicas de investigação. Em Portugal existem excelentes investigadores que têm possibilitado a afirmação de Portugal como um país com uma palavra a dizer na investigação científica internacional. No entanto, a falta de financiamentos e de promoção de carreiras científicas, tanto no setor público como privado, são os principais obstáculos, fazendo com que muitos investigadores partam para o estrangeiro.

REF: Como valoriza a interdisciplinaridade dos investigadores no CICS?
 
APD: Tal como já referi, o CICS-UBI é um centro multidisciplinar e tem sido uma estratégia nossa aproveitar esta mais-valia, fomentando, de várias formas, a interdisciplinaridade. Para resolver os grandes desafios da sociedade é fundamental que os cientistas de diferentes áreas estejam a trabalhar em conjunto numa solução para os complexos problemas da atualidade.

REF: Quais são as ambições do CICS para o futuro?

APD: São muitas as ambições que o CICS tem para o futuro, mas vou só enumerar algumas. É fundamental um aumento da internacionalização, um aumento da investigação de translação e, sobretudo, um aumento de financiamento. Assim, a nossa maior e mais imediata ambição é obter “Excelente” na avaliação da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), que está a decorrer neste momento.

Texto produzido por: Beatriz da Branca, FFULisboa

Entrevista à coordenadora do Observatório de Interações Planta-Medicamento

Os estudantes integram as equipas de trabalho de uma forma espontânea, contactando-nos diretamente ou via secção de Estágios do Núcleo de Estudantes de Farmácia (NEF/AAC). No OIPM, trabalham na resolução dos casos clínicos ao lado dos outros colaboradores.
— Professora Maria da Graça Campos, Coordenadora do OIPM
OIPM - MGC.jpg

Reflexus (REF): Podemos dizer que o Observatório de Interações Planta-Medicamento (OIPM) é um centro de investigação "diferente" do habitual. O que levou à sua constituição?

Maria da Graça Campos (MGC): Há muitos anos que o nosso laboratório de Farmacognosia da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra (FFUC) é chamado a colaborar em situações problemáticas que envolvem plantas medicinais e/ou tóxicas. Depois do ano de 2000, os pedidos envolviam essencialmente situações relacionadas com interações entre plantas medicinais e medicamentos. Os casos mais complexos relacionavam-se com doentes oncológicos e esse foi o primeiro projeto que submetemos ao Instituto Português de Oncologia de Coimbra, em 2007. Tendo sido aprovado em 2009, está em vigor até 2020. Nessa altura, percebemos que o problema era mais abrangente e, em 2011, criou-se o OIPM para poder tornar mais visível o trabalho que desenvolvíamos, de modo a ajudar os cidadãos e os profissionais de saúde de uma forma mais fácil e estruturada. Incluímos, nesta fase, os doentes crónicos e as campanhas em Saúde Pública.

REF: Que tipo de colaboração com outras instituições, nomeadamente centros de investigação, têm sido estabelecidas pelo Observatório?

MGC: Existem várias colaborações que podem ser consultadas no site oipm.uc.pt, no separador “Parceiros”. Atualmente, estamos a trabalhar com alguns Hospitais Oncológicos e Universidades de Espanha e França, para divulgar nesses países os conteúdos que disponibilizamos em Portugal. O site estava já traduzido em Espanhol e em Inglês, embora não na sua totalidade por falta de disponibilidade das equipas de trabalho. Agora, será completado nessas línguas e também em Francês.

REF: Na estrutura do Observatório integram estudantes, maioritariamente de Ciências Farmacêuticas. De que forma ingressaram no OIPM e que tipo de trabalho têm vindo a desenvolver? 

MGC: Os estudantes integram as equipas de trabalho de uma forma espontânea, contactando-nos diretamente ou via secção de Estágios do Núcleo de Estudantes de Farmácia (NEF/AAC). No OIPM, trabalham na resolução dos casos clínicos ao lado dos outros colaboradores.

REF: Dos projetos atualmente em curso, quais merecem a nossa especial atenção? 

MGC: Estamos a colaborar em projetos europeus, para os quais vamos fazer campanhas de comunicação aos doentes baseadas no modelo que desenvolvemos para Portugal.

REF: Quais as principais ambições para o futuro do OIPM?

MGC: O OIPM só pretende que haja um uso racional de plantas medicinais e de medicamentos. Temos várias propostas para ensaios clínicos neste âmbito das interações, pois dispomos de muitos dados. Para isso, vamos iniciar uma campanha nas escolas, junto das crianças, para que possam aprender essas questões. Depois, o OIPM deverá terminar as suas funções de Observatório e iniciar um Centro de Investigação nesta área, mas sem as funções mais marcadas de “observar”. No futuro, creio que poderemos aprender a tratar com todos os fármacos disponíveis e validados, ou seja, plantas medicinais e medicamentos alopáticos em total segurança e com provas dadas de eficácia.

REF: A sua carreira profissional enquanto Farmacêutica teve início em Farmácia Comunitária. Como surgiu o interesse pelo estudo das plantas medicinais e o trabalho de investigação na área das Interações Planta/Suplemento-Medicamento? 

MGC: Só trabalhei em Farmácia Comunitária durante 3 meses. Gostei muito, mas depois ingressei na carreira de docente na área da Farmacognosia. Do trabalho desenvolvido com plantas medicinais e em drug discovery, até ao que faço atualmente, foi um caminho muito simples, dado que nunca deixei de parte os conhecimentos e o estudo da Farmacologia e Farmacoterapia.

REF: Considera que o Farmacêutico desempenha um papel ativo no que ao uso responsável e adequado de Suplementos Alimentares/Plantas Medicinais diz respeito? 

MGC: Na maioria dos casos creio que sim, já que têm obrigação de ter formação para poder aconselhar. A farmácia sempre foi o local de eleição para a dispensa de fármacos, sejam de origem natural ou não. Entre 1983 e 1984, quando estagiei e depois trabalhei em Farmácia Comunitária, era frequente vender plantas medicinais. Foi uma pena que a Europa tivesse seguido os senadores americanos Orrin Hatch e Tom Harkin, quando alteraram a legislação dos suplementos dietéticos no Senado, em 1990, passando a incluir nos mesmos “herbs and similar nutritional products”, além das vitaminas, proteínas e sais minerais, que já integravam a definição original. Assim, abriram a “Caixa de Pandora” e, neste momento, é muito difícil gerir tudo o que se pode colocar nestes produtos com o “chapéu” dessa legislação tão abrangente.

REF: "Nem tudo o que é natural faz bem”. O que julga faltar para uma maior consciencialização dos riscos da utilização de produtos de origem natural, como plantas medicinais ou suplementos alimentares, na população portuguesa? Que posição deve ser assumida pelo Farmacêutico?

MGC: Os suplementos alimentares devem fazer isso mesmo: suplementar carências alimentares, de modo a manter a homeostasia e nada mais que isso. A inclusão de plantas medicinais e de outras, que nem sequer estão validadas como isso, pode colocar a saúde de quem as consome em risco e não deveria ser permitida. A Fitoterapia é muito importante. Leciono também nessa área, na FFUC, desde 1992. Esta deve ser feita com produtos de qualidade garantida, devidamente doseados e com total segurança e eficácia. O Farmacêutico deve saber separar o trigo do joio…

Texto produzido por: Raquel Alcarpe, FFULisboa
 

iMed.ULisboa - Entrevista Professora Cecília Rodrigues

Hoje faço investigação num país moderno, com cientistas muito competentes e infraestruturas que permitem realizar uma investigação competitiva e reconhecida a nível internacional, apesar dos tempos recentes mais conturbados.
— Professora Cecília Rodrigues, Coordenadora do iMed.ULisboa
CR.PNG

REFlexus (REF): Pode falar-nos um pouco do seu percurso profissional? Como descreve o seu percurso desde que terminou os estudos na FFULisboa até chegar a Diretora do Centro de Investigação da mesma instituição?

Cecília Rodrigues (CR): Depois de terminar a licenciatura em Ciências Farmacêuticas na FFULisboa, em 1992, rumei até à Universidade de Cincinnati, em Ohio, nos Estados Unidos da América, onde realizei a minha formação pós-graduada, com vista à obtenção do grau de Doutor, sob orientação científica do Professor Kenneth D. R. Setchell. Depois de terminar o Doutoramento em Farmácia, na especialidade de Bioquímica, pela Universidade de Lisboa, regressei aos EUA, em 1996, para o pós-doutoramento na área de Biologia Molecular e Celular, na Universidade de Minnesota, sob orientação do Professor Clifford J. Steer. Fui bolseira da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Depois de um período curto no Instituto Superior de Ciências da Saúde - Sul, no Monte de Caparica, regressei à FFULisboa, em 1999, fiz a agregação, em 2005, e sou Professora Catedrática, desde 2009. Em 2013-14, promovemos a fusão das duas unidades de investigação da FFULisboa, dando origem ao atual Instituto de Investigação do Medicamento (iMed.ULisboa), que coordeno desde então. É um percurso de trabalho e desafio permanentes.

REF: O que a motivou a seguir o campo da investigação? Qual o primeiro contacto de que tem memória com esta área?

CR: O fascínio pelo desconhecido e a vontade de saber sempre mais. Iniciei a minha atividade científica em 1989, após ter sido convidada pelo Professor Carlos da Silveira a integrar o Centro de Metabolismos e Genética. Na altura, fui inserida nos projetos de investigação relacionados com o estudo da bilirrubina e do seu mecanismo de toxicidade no recém-nascido, sob orientação da Professora Dora Brites.

REF: Quais as maiores diferenças que consegue apontar entre a investigação quando entrou nesta área e a investigação nos dias de hoje? Quais os principais avanços passíveis de serem notados?

CR: A evolução foi enorme. Hoje faço investigação num país moderno, com cientistas muito competentes e infraestruturas que permitem realizar uma investigação competitiva e reconhecida a nível internacional, apesar dos tempos recentes mais conturbados.

REF: Pode contar-nos em que projetos se encontra a trabalhar de momento?

CR: Na área da investigação, salientaria um projeto com coordenação do iMed.ULisboa, que teve início este ano, e que vai receber financiamento de cerca de 2,5 milhões de euros para a construção de uma plataforma de descoberta e desenvolvimento de tecnologias, produtos e soluções personalizadas em oncologia. O consórcio POINT4PAC junta quatro unidades de investigação da ULisboa e outra que inclui o Instituto Politécnico de Leiria, tendo como objetivo explorar e concretizar estratégias promissoras que permitam encontrar novos candidatos a medicamentos e direcioná-los de forma precisa para o local de doença. O trabalho do consórcio vai ser desenvolvido por equipas multidisciplinares que integram também empresas nacionais biotecnológicas e farmacêuticas, hospitais e associações médicas e de doentes. O financiamento provém do Portugal 2020, um programa que reúne fundos europeus estruturais e de investimento, além de fundos nacionais.

REF: Quais os principais desafios em conciliar as duas áreas em que se encontra a trabalhar atualmente: a investigação e o ensino?

CR: A investigação e o ensino complementam-se e enriquecem-se mutuamente, pelo que é, naturalmente, sempre com entusiasmo renovado, que iniciamos cada ano.

REF: Quais são as principais áreas de investigação representadas atualmente no iMed? E quais os principais estudos a ocorrer?

CR: O iMed.ULisboa responde a desafios colocados pela descoberta e desenvolvimento de medicamentos. Embora visando o máximo impacto, pretendemos incentivar a investigação em todo o espetro do desenvolvimento de medicamentos, desde o laboratório até aos estudos pré-clínicos. Também temos trabalho relativo à utilização do medicamento.

Valorizamos um ambiente que incentiva a colaboração interdisciplinar no iMed.ULisboa, onde investigadores e alunos de doutoramento se dedicam quer a questões fundamentais, quer a aplicações específicas, na área da inovação terapêutica. Muito importante, trabalhamos de perto com colaboradores nacionais e internacionais, da academia e da indústria, para cumprir a nossa missão. Julgamos que esta estratégia mantém um portfólio de investigação equilibrado e, ao mesmo tempo, estrutura-o por forma a refletir a evolução das necessidades em saúde, nomeadamente nas áreas do envelhecimento e doenças associadas, tais como o cancro e as doenças do metabolismo  ou neurodegenerativas.

REF: Como descreve a relação entre os diversos colaboradores do centro de investigação, por estes poderem provir de diferentes áreas?

CR: É uma relação muito enriquecedora para todos, em que partilhamos recursos, competências e conhecimento na mesma instituição de acolhimento, a FFULisboa.

REF: Consegue apontar quais os principais desafios e dificuldades como diretora de um centro de investigação na atualidade?

CR: Assegurar a cooperação intrainstitucional, bem como a coerência interna, para maximizar o impacto nacional e internacional da investigação que realizamos.

REF: Como vê o futuro da investigação científica em Portugal? Quais os maiores desafios que os investigadores científicos enfrentam no nosso país? E fora dele?

CR: O sistema de investigação, desenvolvimento e inovação português atingiu um estado de maturidade. Estamos numa fase de fazer escolhas e definir prioridades. É fundamental aumentar a taxa de sucesso de Portugal em programas de financiamento da investigação, nomeadamente, a nível europeu, para que o nosso nível de competitividade aumente ainda mais.

Texto produzido por: Beatriz da Branca, FFULisboa